Jorge Regueira - O mestre da caligrafia

Jorge Regueira (1962) É um artista plástico com origem galega a viver em Madrid. É conhecido por ser um artista auto-didacta e original. Inicialmente formado em publicidade, Regueira é um criador multifacetado, com experiência na direção de arte, na literatura e na caligrafia, sendo esta última a que o tornou mais reconhecido. 

 

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Formação em publicidade

Assim como expressa numa entrevista para um blog, a publicidade foi a primeira grande atividade em que o Jorge Regueira se especializou e que teve uma grande influência na sua trajetória artística: "ser criativo em publicidade ensina-te a ser inquieto, a ser curioso, a questionar-te a forma em que se contam algumas coisas para tentar conta-las de outra forma, a procurar novos discursos, a procurar o mais importante e essencial, o conceito…"

Para Regueira, ser artista e criativo publicitário são atividades similares na sua execução, mas com objetivos radicalmente diferentes. De uma forma geral, poderia dizer-se que o propósito final da publicidade é a venda de um determinado produto, enquanto que a arte se preocupa  em encontrar através de diferentes suportes e materiais, uma forma de expressão pessoal. Constantemente a conjugação que se produz entre ambas cria um resultado híbrido.

 

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Arte como linguagem: a visão de Jorge Regueira

Assim como muitos outros artistas, Regueira entende a Arte como uma linguagem, mais uma ferramenta comunicativa. Costuma-se dizer que "uma imagem vale mais que mil palavras", e muitas vezes é certo, mas que é que acontece quando incluímos numa obra plástica um texto como parte da composição?

A Arte conceptual, que costuma dar mais importância à ideia que existe por trás da obra que o seu resultado material, caracteriza-se por apresentar muitas vezes um simples texto pendurado na parede. Já o vimos em Art as a idea de Joseph Kosuth , ou na Bits&Pieces Put Together to Present a Semblance of a Whole de Lawrence Reiner.

A obra de Jorge Regueira, que como já mencionamos integra texto, é em princípio arte conceptual, ainda que o resultado estético seja importante: o texto não é só o veículo de uma ideia, é também bonito em si mesmo e integra-se com o resto da composição.

Jorge Regueira expressa-o da seguinte forma: "sou artista plástico, um pintor que utiliza o traço escrito nos quadros, como qualquer outra pincelada".

Trata-se, em definitivo do cuidador de trabalho de um calígrafo: é um artista da palavra escrita.

 

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"Escrever bonito"

A caligrafia é a arte de "escrever bonito", pretende uma atenção minuciosa a elaboração das letras. Geralmente, os calígrafos como Jorge Regueira desenvolvem um estilo único e genuíno com o tempo.

Como hobbie ou atividade artística não é algo de novo, já que a cultura chinesa utiliza a caligrafia desde épocas milenárias. No Japão é uma arte especialmente célebre chamado “shodo”, considerando-se uma área mais ligada ao budismo Zen.

Com esta pincelada Zen, Jorge Regueira decora e complementa de uma forma muito elegante as suas obras servindo-se da tinta das suas penas e pincéis, ferramentas que ele mesmo fabrica com restos de materiais orgânicos. Mais um reflexo do espírito autodidata e livre do autor.

Mas a caligrafia do artista vai mais longe e explora o gestual através de traços vivos e despreocupados do aspecto formal das letras. Ele esquece qualquer função utilitária e "utiliza tintas na expressividade e no texto". O artista explica que a caligrafia gestual bebe de correntes como o Expressionismo abstrato, e este, pela sua vez, da escola japonesa de caligrafia do período entre guerras. Mais um exemplo de como as vanguardas se complementam e influenciam entre elas.

Por tudo isto, os traços de Jorge Regueira estão carregados de contrastes, liberdade, ritmo e sentimento, e a sua semelhança com a pintura abstrata leva-o a o considerar-se mais um pintor que utilizou o traço escrito nas suas obras, e não ao contrário.

 

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Acrílico e tinta monocromática

Como vamos vendo, a arte oferece diversas possibilidades expressivas tanto na sua conceptualização como na sua materialização. E a cor é outro elemento central em qualquer obra de arte, tanto por excesso como por ausência. Este último é o caso de Regueira.

Nenhum artista incluindo Jorge Regueira, faz uma seleção banal da cor nas suas paletas: "interessam os contrastes que produz a mesma cor em diferentes graduações ao sobrepor-se a diferentes elementos da obra" revela.

O galego também expressa noutras entrevistas que o uso monocromático ou bicromático não é uma questão de preferência, seguramente não consciente, "é o que sai de dentro, e por esse mesmo motivo, o que fazes com maior naturalidade, o terreno em que melhor te moves".

Jorge Regueira admite que a técnica chinesa do sumi-e, que mais tarde chegou ao Japão também tem influência, na qual se recorre ao preto como único pigmento que produz uma tinta que, diluída em uma certa quantidade de água, produz efeitos realmente surpreendentes. Com o estilo pessoal que o define Regueira recorre neste caso a combinação de acrílico e tinta para dar vida às suas obras.

 

Jorge Regueira como explorador de possibilidades

Quando um hobbie se converte num trabalho, a paixão converte-se na marca da casa. Regueira é um incansável explorador de possibilidades, curioso das potencialidades da arte e da ilustração. E claro, um insaciável leitor.

As suas obras são um fiel reflexo das suas preferências: em Mar de Aral, Falsa equidistância, Zaratustra, Kilimanjaro u Ósmosis fica patente a busca filosófica de perspectivas e a sensibilidade poética.

Talvez, tudo começou quando escrevia contos e pequenos relatos como satisfação pessoal, antes de se focar no lado mais visual da produção artística.

 

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Exposições em destaque de Jorge Regueira

Depois dos seus primeiros passos como redator publicitário, Jorge Regueira foi abrindo caminho no mundo da arte participando em várias exposições e conquistando espaço nas agendas das galerias de arte.

Para referir algumas, destaca a VI exposição de caligrafia de Moscovo, onde Jorge Regueira recorreu a Lorca nas suas obras " Terra incógnita " " La Aurora " e " Cosido con palabras “. Nesta exposição houve quem parasse a analisar com lupa os " Trazos vivos " das 21 telas apresentadas, reparando no universo visual onde " A letra é a grande protagonista ", segundo o próprio. Regueira foi o único artista espanhol nesta exposição.

Outras obras imprescindíveis de Jorge Regueira são as levadas a cabo em Madrid: “ Polisemias ” na Fundação Pons; " Sentidos y sentimientos ” de Hesperia Madrid; “ Trazos vivos ” no Eurobuilding; “ Poesia desperdiçada y 6 versos libres ” en Est_Art Space de Alcobendas ou “ Paisajes imbuídos ” para Hybrid Festival.

São várias as galerias relevantes que acolheram obras de Jorge Regueira: Xerión na Corunha e as galerias online Kreisler Art y Flecha, sem esquecer de mencionar a coleção das suas obras do fundo de arte da Fundação Pons, na Calle Serrano de Madrid.


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