Nadir Afonso: «Copacabana» e a Geometria do Período Ogival (1955)
Nadir Afonso e «Copacabana»: a geometria e a arquitetura no Período Ogival
A obra de Nadir Afonso ocupa um lugar incontornável na história da arte moderna e contemporânea portuguesa. Reconhecido pela sua investigação em torno da geometria, da cor e do movimento, o artista desenvolveu uma linguagem plástica muito própria, na qual a arquitetura e a matemática assumem um papel central. Entre as obras que ajudam a compreender a evolução desta linguagem encontra-se «Copacabana», uma pintura de 1955 que integra o Período Ogival, uma das fases mais importantes da sua produção artística.
Em «Copacabana», Nadir Afonso explora a relação entre formas geométricas, ritmo visual e organização espacial, construindo uma composição que revela o seu interesse pela arquitetura e pela representação abstrata das cidades. A obra constitui um exemplo significativo da forma como o artista procurava transformar elementos da realidade urbana em estruturas visuais autónomas, afastando-se progressivamente da representação figurativa tradicional. Mais do que reproduzir uma paisagem reconhecível, o pintor procura descobrir a harmonia existente nas formas, nas linhas e nas relações entre diferentes elementos geométricos.
Para compreender a importância de «Copacabana», é fundamental conhecer o percurso artístico de Nadir Afonso e o contexto em que desenvolveu o Período Ogival. Esta fase representa um momento de consolidação da sua investigação abstrata, no qual a geometria se torna o principal instrumento de construção da imagem e a cidade passa a funcionar como um dos seus temas visuais mais recorrentes.
Quem foi Nadir Afonso?
Nadir Afonso (1920–2013) foi um pintor, arquiteto e pensador português, nascido em Chaves, cuja obra contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento da abstração geométrica em Portugal. Desde cedo demonstrou interesse pelas artes visuais, tendo iniciado a sua formação artística antes de ingressar no curso de Arquitetura da Escola de Belas-Artes do Porto, em 1938.
A formação arquitetónica viria a desempenhar um papel determinante na sua produção artística. A atenção à estrutura, à proporção, à organização do espaço e à relação entre diferentes elementos formais tornou-se uma característica permanente da sua pintura. Embora tenha desenvolvido atividade profissional na área da arquitetura, Nadir Afonso encontrou na pintura o principal meio de expressão das suas ideias sobre a arte e a harmonia.
Durante a sua permanência em Paris, trabalhou no atelier de Le Corbusier e contactou com importantes figuras da arte moderna, entre as quais Fernand Léger e Victor Vasarely. Mais tarde, também colaborou com Oscar Niemeyer, no Brasil. Estas experiências permitiram-lhe aprofundar a relação entre arquitetura e artes visuais, ao mesmo tempo que consolidaram o seu interesse pelas possibilidades expressivas da geometria.
Ao longo da carreira, Nadir Afonso desenvolveu uma investigação artística e teórica muito particular. Para o artista, a arte não dependia exclusivamente da imaginação ou da representação do mundo visível, mas resultava de uma procura de harmonia através das formas e das suas relações. A geometria não era apenas um recurso técnico ou compositivo: constituía um princípio fundamental para compreender a organização estética do universo.
Esta perspetiva está presente nos diferentes períodos em que se divide a sua produção, desde as primeiras experiências de modernidade e as composições surrealistas até à abstração geométrica, ao Período Ogival, ao Período Perspéctico e ao Realismo Geométrico. Cada fase corresponde a uma investigação específica sobre a forma, o espaço, a cor e o movimento, revelando a constante evolução da sua linguagem artística.
«Copacabana» (1955): uma cidade transformada em geometria
Pintada em 1955, «Copacabana» é uma obra particularmente relevante para compreender a evolução da linguagem geométrica de Nadir Afonso. Integrada no Período Ogival pela Fundação Nadir Afonso, a pintura demonstra como o artista começou a transformar referências arquitetónicas e urbanas em composições abstratas, nas quais a organização das formas assume maior importância do que a representação literal dos lugares.
O título remete para Copacabana, uma das zonas mais conhecidas do Rio de Janeiro, no Brasil, cuja paisagem urbana e arquitetura constituem referências possíveis para a interpretação da obra. No entanto, Nadir Afonso não procura apresentar uma representação convencional de uma cidade ou reproduzir fielmente uma paisagem brasileira. Em vez disso, utiliza a referência urbana como ponto de partida para desenvolver uma composição construída através de elementos geométricos.
Na pintura, as formas organizam-se numa estrutura visual dinâmica, marcada pela presença de linhas verticais e horizontais, arcos, figuras geométricas e contrastes cromáticos. A composição revela uma preocupação evidente com o equilíbrio entre os diferentes elementos, criando uma espécie de arquitetura visual que se desenvolve sobre a superfície da tela.
A cor desempenha igualmente um papel essencial. As diferentes tonalidades contribuem para distinguir as formas, estabelecer relações de proximidade e afastamento e criar um ritmo visual que conduz o olhar através da composição. A utilização de cores contrastantes reforça a autonomia dos elementos geométricos, enquanto as linhas delimitam espaços e estabelecem uma estrutura que lembra, simultaneamente, uma paisagem urbana e um sistema arquitetónico abstrato.
Em «Copacabana», a cidade deixa de ser entendida apenas como um conjunto de edifícios, ruas e espaços habitados. Transforma-se numa organização de formas, proporções e relações espaciais. Esta abordagem demonstra a capacidade de Nadir Afonso para encontrar estruturas geométricas na realidade e convertê-las numa linguagem artística independente.
A obra permite também compreender a importância que a arquitetura teve na sua formação. O conhecimento das estruturas e das relações espaciais manifesta-se na forma como cada elemento parece ocupar uma posição cuidadosamente pensada dentro da composição. Existe uma preocupação com o equilíbrio, mas também com o movimento e a tensão entre as diferentes formas.
«Copacabana» é, assim, um exemplo da forma como Nadir Afonso procurou ultrapassar os limites da representação tradicional, construindo uma linguagem em que a cidade se torna uma estrutura visual abstrata.
O que é o Período Ogival de Nadir Afonso?
O Período Ogival é uma das fases mais características da produção artística de Nadir Afonso. Segundo a classificação apresentada pela Fundação Nadir Afonso, esta etapa tem início por volta de 1955 e desenvolve-se ao longo dos anos seguintes, sendo identificada pela presença de formas geométricas específicas, nomeadamente ogivas, arcos contra-curvos e duplas calotes.
A ogiva, elemento arquitetónico associado sobretudo à arquitetura gótica, caracteriza-se pela sua forma pontiaguda, resultante da interseção de dois arcos. Na pintura de Nadir Afonso, esta referência é reinterpretada através de uma linguagem abstrata, deixando de funcionar como um elemento arquitetónico literal para assumir uma dimensão essencialmente geométrica e compositiva.
Nesta fase, o artista desenvolve estruturas visuais a partir da repetição, da combinação e da transformação de formas elementares. Os elementos geométricos encontram-se inicialmente mais concentrados na zona central da composição, irradiando progressivamente para outras áreas da superfície pictórica. Esta organização cria uma sensação de expansão e movimento, como se as formas estivessem constantemente a estabelecer novas relações entre si.
Uma das características mais interessantes do Período Ogival é a forma como Nadir Afonso consegue criar uma sensação de profundidade sem recorrer necessariamente aos mecanismos tradicionais da perspetiva. A sobreposição, a proximidade entre formas, os contrastes de cor e a organização das linhas permitem construir diferentes planos visuais, dando origem a composições que parecem oscilar entre a bidimensionalidade e a tridimensionalidade.
À medida que esta investigação evolui, as composições tornam-se mais complexas. As formas aumentam em número, diminuem de dimensão e passam a ocupar diferentes zonas da tela. A relação entre os elementos geométricos torna-se progressivamente mais dinâmica, criando estruturas que podem ser interpretadas como cidades imaginárias, paisagens arquitetónicas ou sistemas abstratos.
«Copacabana», datada precisamente de 1955, é uma das obras associadas ao início desta fase. A Fundação Nadir Afonso inclui-a no conjunto de trabalhos representativos do Período Ogival, ao lado de obras como «Estudo para Copacabana», «Estudo para Place Rouge», «Estudo para Veneza» e «Le Grand Canal» (1956).
Esta associação permite compreender que o Período Ogival não corresponde apenas à utilização de determinadas formas geométricas, mas a uma investigação mais abrangente sobre a organização do espaço e a transformação da realidade urbana através da abstração.
A influência da arquitetura na pintura de Nadir Afonso
A relação entre arquitetura e pintura é um dos aspetos fundamentais para compreender a obra de Nadir Afonso. A sua formação académica e a experiência profissional junto de arquitetos como Le Corbusier e Oscar Niemeyer contribuíram para desenvolver uma sensibilidade particular em relação à estrutura, à proporção e à organização espacial.
Na arquitetura, cada elemento estabelece uma relação com o conjunto. As linhas, os volumes, as superfícies e os espaços vazios participam numa estrutura que deve responder a princípios de equilíbrio e funcionalidade. Na pintura de Nadir Afonso, encontramos uma preocupação semelhante, embora os elementos deixem de estar subordinados a uma função prática e passem a existir sobretudo pelas suas qualidades visuais.
Em «Copacabana», esta relação torna-se particularmente evidente. A composição parece construída através de uma lógica arquitetónica, na qual cada forma participa num sistema visual mais amplo. As linhas verticais sugerem estruturas e elevações, enquanto as horizontais estabelecem uma organização espacial que remete para a disposição de edifícios e elementos urbanos.
No entanto, a pintura não pretende funcionar como uma representação arquitetónica. O artista apropria-se de princípios associados à arquitetura para desenvolver uma linguagem autónoma, em que a forma, a cor e o movimento se tornam os principais protagonistas.
Esta abordagem aproxima Nadir Afonso de algumas das experiências fundamentais do modernismo europeu, nomeadamente a abstração geométrica e o construtivismo. Contudo, a sua produção distingue-se pela investigação teórica que acompanha a prática artística e pela convicção de que a harmonia visual resulta de relações formais que podem ser estudadas e desenvolvidas.
A cidade ocupa, neste contexto, um lugar central. Ao longo da sua carreira, Nadir Afonso representou diferentes ambientes urbanos, transformando referências como Veneza, Paris, Moscovo e Copacabana em composições geométricas. Estas cidades não surgem necessariamente como lugares reconhecíveis, mas como estruturas visuais que permitem explorar a relação entre arquitetura, espaço e geometria.
A abstração geométrica e a construção de cidades imaginárias
A abstração geométrica foi uma das principais correntes artísticas do século XX e procurou afastar a pintura da representação direta da realidade, privilegiando formas elementares, linhas, cores e relações matemáticas. Em vez de reproduzir objetos ou paisagens, os artistas exploraram as possibilidades expressivas dos próprios elementos visuais.
Nadir Afonso desenvolveu uma abordagem muito própria a esta linguagem. Embora partilhasse com outros artistas modernos o interesse pela geometria, a sua investigação assentava numa reflexão contínua sobre as leis que determinam a harmonia das formas.
As suas cidades são um dos exemplos mais reconhecidos desta investigação. Em vez de apresentar paisagens urbanas realistas, o artista constrói ambientes através da repetição e transformação de elementos geométricos. Edifícios, ruas, fachadas e estruturas arquitetónicas são reduzidos a linhas, arcos, polígonos e superfícies cromáticas.
Esta transformação permite criar cidades que parecem existir entre a realidade e a abstração. São reconhecíveis pela sua organização arquitetónica, mas não correspondem necessariamente a um espaço geográfico concreto. Cada composição apresenta uma lógica própria, na qual as formas se relacionam de acordo com princípios de equilíbrio e dinamismo.
Em «Copacabana», esta conceção já se encontra presente. A referência a uma cidade real serve de ponto de partida para uma investigação visual que ultrapassa a paisagem original. O artista não procura documentar um lugar, mas descobrir as possibilidades geométricas que podem resultar da sua interpretação.
É precisamente esta capacidade de transformar referências do quotidiano em estruturas abstratas que confere à obra de Nadir Afonso uma identidade tão particular. A sua pintura não abandona completamente o mundo real: procura antes encontrar uma nova forma de o interpretar.
«Copacabana» e a importância da cor na composição
A cor é um dos elementos essenciais da linguagem artística de Nadir Afonso. Nas suas composições, não funciona apenas como um recurso decorativo ou como uma forma de identificar diferentes objetos. Participa ativamente na construção do espaço, na definição das formas e na criação de ritmos visuais.
Em «Copacabana», os contrastes cromáticos contribuem para estabelecer relações entre os diferentes elementos geométricos. As cores permitem distinguir planos, criar tensões visuais e orientar o olhar ao longo da composição. A relação entre tonalidades mais intensas e áreas de maior neutralidade reforça a estrutura da pintura e impede que a multiplicidade de formas resulte numa composição visualmente desorganizada.
Esta utilização da cor está diretamente relacionada com a investigação de Nadir Afonso sobre a harmonia. Para o artista, a organização cromática deveria contribuir para o equilíbrio global da obra, estabelecendo relações entre as diferentes partes da composição.
A cor e a geometria funcionam, assim, como elementos inseparáveis. Uma determinada forma adquire uma presença visual diferente consoante a tonalidade que lhe é atribuída e a relação que estabelece com as formas que a rodeiam. Cada elemento participa num sistema de relações que determina o resultado final.
Esta atenção à organização cromática contribui para a singularidade da obra de Nadir Afonso e ajuda a explicar a vitalidade visual das suas composições.
A importância de «Copacabana» no percurso artístico do pintor
A relevância de «Copacabana» ultrapassa a sua dimensão enquanto pintura individual. A obra permite compreender um momento particularmente importante na evolução artística de Nadir Afonso, quando a geometria começa a assumir um papel cada vez mais estruturante na sua linguagem visual.
Datada de 1955, «Copacabana» pertence a uma fase em que o artista aprofunda a relação entre arquitetura e abstração, desenvolvendo composições que procuram representar o espaço urbano através de estruturas geométricas. O Período Ogival representa, neste sentido, uma etapa importante na consolidação de uma identidade artística que viria a desenvolver-se ao longo das décadas seguintes.
A importância histórica da pintura é também confirmada pela sua presença em diferentes contextos de divulgação e estudo da obra do artista. «Copacabana» foi reproduzida em várias publicações, tendo sido escolhida para a capa do número 41 da revista «Colóquio Artes», em 1979. Em 2010, integrou a exposição retrospetiva «Nadir Afonso – Sem Limites», apresentada no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, em Lisboa, e no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.
Estes momentos demonstram o reconhecimento da obra no contexto da história da arte portuguesa e a sua importância para compreender a investigação plástica desenvolvida pelo artista durante a década de 1950.
A pintura evidencia também a forma como Nadir Afonso conseguiu estabelecer um diálogo entre diferentes disciplinas artísticas. A arquitetura fornece-lhe princípios de organização espacial, enquanto a geometria permite transformar esses princípios numa linguagem pictórica independente.
Ao longo da sua carreira, o artista continuou a desenvolver esta investigação, criando diferentes sistemas formais e explorando novas possibilidades de representação abstrata. Contudo, as experiências realizadas durante o Período Ogival permanecem fundamentais para compreender a origem e a evolução das suas conhecidas composições urbanas.
O legado de Nadir Afonso na arte portuguesa
Nadir Afonso deixou um legado particularmente importante para a arte portuguesa do século XX. A sua produção artística, acompanhada por uma extensa reflexão teórica sobre a estética e a geometria, contribuiu para afirmar a abstração geométrica como uma das linguagens fundamentais da modernidade artística em Portugal.
A sua obra encontra-se representada em importantes coleções e instituições culturais, nacionais e internacionais. Em 2016, foi inaugurado o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves, num edifício projetado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira. O museu constitui um espaço dedicado à preservação, investigação e divulgação do seu percurso artístico.
A relação entre arquitetura e arte, tão presente na vida de Nadir Afonso, encontra uma expressão simbólica neste edifício. Projetado por um dos arquitetos portugueses mais reconhecidos internacionalmente, o museu estabelece um diálogo entre a obra do artista e a arquitetura contemporânea.
Mais do que um pintor associado à abstração geométrica, Nadir Afonso foi um investigador incansável das relações entre forma, espaço e harmonia. A sua obra demonstra como a geometria pode ultrapassar os limites da matemática e tornar-se um instrumento de criação artística, capaz de transformar a realidade em composições visuais de grande complexidade.
«Copacabana» representa um momento essencial desta investigação. Ao transformar uma referência urbana numa estrutura geométrica, Nadir Afonso demonstra que a pintura pode construir novas formas de observar e interpretar o mundo. A cidade deixa de ser apenas um lugar físico e passa a existir como um conjunto de relações entre linhas, cores e formas.
Para quem procura compreender a evolução da abstração geométrica em Portugal, esta obra constitui uma referência importante. A sua relação com o Período Ogival permite reconhecer uma das etapas em que Nadir Afonso definiu algumas das características mais distintivas da sua linguagem artística.
Descubra Nadir Afonso na P55.ART
A obra de Nadir Afonso continua a despertar o interesse de colecionadores e apreciadores de arte, tanto pela sua importância histórica como pela singularidade da sua linguagem visual. As suas composições geométricas, marcadas pelo equilíbrio das formas, pela intensidade cromática e pela influência da arquitetura, mantêm uma presença muito própria na história da arte moderna portuguesa.
Na P55.ART, é possível descobrir uma seleção de obras de Nadir Afonso e conhecer diferentes expressões do seu percurso artístico. Uma oportunidade para explorar a produção de um dos nomes mais importantes da abstração geométrica em Portugal e encontrar uma obra que estabeleça uma relação especial com cada coleção e espaço.
Explore a coleção de obras de Nadir Afonso na P55.ART e descubra a harmonia das formas de um artista que transformou a geometria numa linguagem artística inconfundível.