7 Factos sobre artista e poeta Mário Cesariny
Quem foi Mário Cesariny?
Poeta, pintor e referência fundamental do Surrealismo português, Mário Cesariny é considerado uma das figuras mais importantes da poesia portuguesa do século XX. A sua obra, marcada pela liberdade criativa, pelo inconsciente e pela experimentação, ultrapassou as fronteiras da literatura e encontrou na pintura, no desenho e na colagem outras formas de expressão. Foi também antologista, compilador e uma das vozes mais marcantes na divulgação e reflexão sobre as atividades surrealistas em Portugal.
A sua produção artística desafia classificações convencionais. Na obra de Cesariny, poesia e pintura encontram-se num território comum, onde as palavras podem transformar-se em imagens e os objetos ganham novos significados. Para compreender a importância do artista, é essencial conhecer alguns episódios da sua vida e do percurso que o levou a tornar-se uma figura incontornável da cultura portuguesa.
1. A vida em casa não era fácil
Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu a 9 de agosto de 1923, na Vila Edith, na Estrada da Damaia. O pai, Viriato de Vasconcelos, era ourives e tinha uma oficina na Rua da Palma, em Lisboa. A mãe, María de las Mercedes Cesariny, era parisiense, de ascendência espanhola, e professora de francês. A infância do artista foi marcada por um ambiente familiar difícil. O casamento dos pais não tinha sido feliz e as discussões eram recorrentes. Uma das imagens que permaneceu na memória de Cesariny era a do pai, de um lado, “ameaçando tudo e mais alguma coisa”, e a mãe do outro, com os quatro filhos encolhidos atrás dela.
Estas experiências fizeram parte do contexto pessoal em que cresceu e ajudam a compreender alguns dos temas que atravessam a sua obra. Ao longo da vida, Cesariny procurou construir um universo próprio, distante das convenções sociais e artísticas que considerava limitadoras.
2. Descobriu o Surrealismo através de um livro
O encontro de Mário Cesariny com o Surrealismo aconteceu por volta de 1945 ou 1946, quando, juntamente com Alexandre O’Neill, descobriu o livro História do Surrealismo, de Maurice Nadeau. A leitura desta obra foi determinante para ambos, levando-os a identificar-se com os princípios do movimento e a assumir a sua vontade de se tornarem surrealistas.
Para Cesariny, o Surrealismo representava muito mais do que uma corrente artística ou literária. Era uma forma de estar no mundo e uma afirmação da liberdade individual, do amor e da poesia. O artista reconhecia no movimento uma possibilidade de romper com as convenções estabelecidas e de explorar outras dimensões da realidade, nomeadamente através do sonho, do acaso e do inconsciente.
A sua ligação ao movimento não se limitou à criação artística. Cesariny teve também um papel importante na organização e divulgação do Surrealismo em Portugal, participando em grupos e iniciativas que procuravam afirmar uma nova linguagem artística. Entre os artistas associados ao desenvolvimento do movimento em Portugal destaca-se também Cruzeiro Seixas, cuja obra desenvolveu um universo visual próprio, marcado pela imaginação, pela liberdade poética e por imagens inesperadas.
3. Poesia e pintura andaram sempre de mãos dadas
Mário Cesariny escrevia, pintava e desenhava com regularidade desde os 19 anos, seguindo inicialmente a ordem da escrita, da pintura e do desenho. A poesia surgiu primeiro, mas a pintura acabaria por ocupar um lugar igualmente importante na sua produção artística. Para Cesariny, estas disciplinas não existiam de forma isolada: influenciavam-se mutuamente e faziam parte de um processo criativo contínuo.
O artista publicou o seu primeiro livro, Corpo Visível, em 1950, um ano depois de ter formado o grupo “Os Surrealistas”. Seguiram-se várias publicações, entre as quais Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (1953), Manual de Prestidigitação (1956) e Pena Capital (1957). Estas obras revelam a originalidade da sua escrita e a forma como explorava a linguagem, a imagem e a associação inesperada de ideias.
A relação entre poesia e pintura tornou-se uma das características mais reconhecíveis do seu percurso. Muitas vezes, um poema dava origem a um desenho, enquanto uma imagem podia conduzir à criação de um texto. Esta ligação entre diferentes formas de expressão permitiu-lhe desenvolver uma linguagem artística singular, na qual a palavra e a imagem se complementam.
4. A sua obra pictórica ultrapassa os limites da pintura tradicional
A obra pictórica de Mário Cesariny não se encaixa numa definição convencional de pintura. As suas peças apresentam características muito próprias, aproximando-se frequentemente de poemas-objeto, construídos através de colagens, palavras, desenhos e objetos. Em vez de separar a literatura das artes visuais, o artista procurava estabelecer relações entre diferentes materiais e linguagens.
A experimentação foi uma constante no seu trabalho. Cesariny utilizava técnicas e materiais diversos, explorando as possibilidades da composição e da associação de elementos aparentemente desconexos. A sua produção artística está profundamente ligada aos princípios do Surrealismo, nomeadamente à valorização do acaso, da imaginação e da liberdade de criação.
Apesar de ser amplamente reconhecido como poeta, o seu trabalho enquanto artista plástico nem sempre recebeu a mesma atenção. Ainda assim, as suas pinturas, desenhos e colagens constituem uma parte essencial do seu legado e demonstram a importância da experimentação na arte portuguesa do século XX.
5. Adorava a vida dos cafés
Os cafés tiveram um papel muito particular na vida e no processo criativo de Mário Cesariny. O artista gostava de trabalhar nestes espaços e afirmava que nunca tinha escrito uma linha em casa. Muitos dos seus poemas eram construídos mentalmente enquanto caminhava pelas ruas de Lisboa ou permanecia sentado à mesa de um café, sendo posteriormente passados para o papel.
Os cafés eram, para Cesariny, muito mais do que locais de encontro. Eram espaços de observação, conversa, liberdade e criação, onde podia acompanhar a vida da cidade e contactar com diferentes pessoas. José Manuel dos Santos recordou esta relação num artigo publicado no jornal Público, em dezembro de 2006, descrevendo os cafés através de expressões como “café-manicómio”, “café-asilo” e “café-escritório”. Apesar de passar grande parte do tempo nestes espaços, Cesariny tinha um hábito curioso: apesar de ser presença assídua, costumava pedir apenas uma água mineral.
6. Foi detido pela PIDE várias vezes
A postura inconformista de Mário Cesariny e a sua forma de estar à margem das convenções sociais colocaram-no frequentemente em conflito com as autoridades durante a ditadura. Apesar de os seus livros nem sempre terem sido alvo direto da censura, o próprio artista foi detido em várias ocasiões pela PIDE, sobretudo por suspeitas de vagabundagem e por comportamentos considerados desviantes pela sociedade da época.
A expressão “vagabundagem” era utilizada para identificar pessoas que não se enquadravam nos padrões sociais estabelecidos, incluindo indivíduos associados a posições anarquistas, comportamentos considerados provocatórios ou modos de vida alternativos. A experiência de Cesariny revela também o ambiente de vigilância e repressão que marcou a vida cultural portuguesa durante o Estado Novo.
A liberdade foi um dos valores centrais da sua vida e da sua obra. A recusa em aceitar normas impostas pela sociedade refletiu-se tanto na sua criação artística como na sua postura pública, tornando-o uma figura particularmente singular no panorama cultural português.
7. Miguel Gonçalves Mendes realizou o documentário Autografia
Nos últimos anos de vida, Mário Cesariny recebeu uma atenção crescente por parte do público e dos meios culturais. Em 2004, o realizador Miguel Gonçalves Mendes apresentou o documentário Autografia, um retrato próximo do poeta e pintor, construído a partir de conversas e entrevistas que permitem conhecer melhor a sua personalidade, as suas ideias e a sua visão da arte.
O documentário acompanha o artista num momento em que a sua obra voltava a despertar um interesse significativo, contribuindo para preservar a memória de uma das figuras mais importantes do Surrealismo português. Através das suas próprias palavras, Autografia oferece um testemunho sobre a vida, a criação artística e a liberdade, temas que atravessaram todo o percurso de Cesariny.
Qual é o legado de Mário Cesariny para a arte portuguesa?
Mário Cesariny morreu a 26 de novembro de 2006, em Lisboa, deixando um legado que continua a influenciar a literatura e as artes visuais em Portugal. A sua obra ocupa um lugar central na história do Surrealismo português, não apenas pela originalidade da sua poesia, mas também pela forma como explorou as relações entre a palavra, a imagem e o objeto.
A sua importância está igualmente ligada à defesa de uma liberdade criativa que recusava fronteiras rígidas entre disciplinas artísticas. Ao experimentar com a pintura, a colagem, o desenho e a escrita, Cesariny desenvolveu uma linguagem própria e contribuiu para alargar as possibilidades de expressão da arte portuguesa.
O seu percurso deve também ser compreendido em diálogo com outros artistas surrealistas portugueses, como Cruzeiro Seixas, cuja produção artística partilha a importância da imaginação, do sonho e da liberdade visual. Em conjunto, estes artistas ajudaram a afirmar uma das correntes mais singulares da arte portuguesa do século XX.
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