A Influência da "Fonte" de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea

A Influência da "Fonte" de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea
A História da A Fonte de Marcel Duchamp
No dia da sanita falamos de uma lenda da história da arte: A Fonte de Marcel Duchamp. Em 1917, o salão da Sociedade de Artistas Independentes de Nova York, alegou que aceitaria qualquer obra de arte, desde que o artista pagasse a taxa de inscrição. Assim começou a lenda desta história que marcou para sempre a Arte Contemporânea e a forma como vemos e analisamos Arte até atualidade. Como supostamente o salão da Sociedade de Artistas Independentes aceitava qualquer obra, Marcel Duchamp enviou um urinol de cabeça para baixo assinado e datado com a denominação “R. Mutt, 1917 ”e intitulado Fountain, como forma de provocar e questionar os termos de aceitação da comissão do evento. (Posteriormente, o artista explicou que a ideia de Fountain surgiu de uma discussão com o colecionador Walter Arensberg e o artista Joseph Stella em Nova York.)
Quando este objeto foi recebido provocou uma grande discussão entre os membros do salão da Sociedade de Artistas Independentes de Nova York. Após uma votação, os diretores presentes durante a instalação do espetáculo no Grand Central Palace (cerca de dez deles, de acordo com um relatório no New York Herald) decidiram por estrito nome do conselho de excluir a inscrição da peça Fountain da exposição inaugural, aberta ao público em 10 de abril de 1917. O conselho da Sociedade, achou que a peça era uma piada de um artista anónimo e rejeitou-a com o fundamento: não é uma verdadeira obra de arte. Marcel Duchamp e Arensberg, membros também do conselho, protestaram a decisão e referiram efetivamente que o conselho estava a censurar a obra de arte de um artista. 

Marcel Duchamp | P55 Magazine | P55.ART

R.Mutt, 1917
É importante ressaltar que não se sabia publicamente que Marcel Duchamp era o criador da Fonte, embora alguns de seus amigos mais próximos (como Walter Arensberg) soubessem do seu envolvimento, e muitos outros suspeitaram. Mais tarde, o artista explicou que não revelou a sua identidade pela sua posição no conselho da Sociedade e para não interferir na opinião dos membros. O facto de que ‘R. Mutt ' ser um artista desconhecido, trazia a possibilidade de Marcel Duchamp de testar a abertura da sociedade para obras de arte que não se conformavam aos padrões estéticos e morais convencionais, sem comprometer o resultado ou suas relações com os membros do conselho. "R. Mutt" é um nome incomum, com conotações cómicas, sendo que Marcel Duchamp foi várias vezes questionado sobre o seu significado e se tinha ligação à palavra alemã Armut que significa pobreza. Marcel Duchamp explicou:
“Mutt comes from Mott Works, the name of a large sanitary equipment manufacturer. But Mott was too close so I altered it to Mutt, after the daily cartoon strip “Mutt and Jeff” which appeared at the time, and with which everyone was familiar. Thus, from the start, there was an interplay of Mutt: a fat little funny man, and Jeff: a tall thin man ... I wanted any old name. And I added Richard [French slang for money-bags]. That’s not a bad name for a pissotière. Get it? The opposite of poverty. But not even that much, just R. MUTT.”

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Como Marcel Duchamp mudou o mundo da Arte com os Readymades?

A criação e apresentação desta peça podem ser vistas como uma experiência do artista de testar o compromisso da nova Sociedade Americana em relação à liberdade de expressão e sua tolerância com novas concepções de arte. Quem conhece o trabalho do artista sabe que este criava “readymades” - objetos retirados da sua função natural e modificados ou recontextualizados para pertencerem a uma estética artística. Os readymades partem do conceito de arte que Marcel Duchamp tinha, sobre a valorização da ideia de obra de arte, invés do objeto em si. Este conceito intelectualmente cativante e desafiador tornou-se indispensável para toda a arte criada durante o século XX até à atualidade. Como a obra de arte foi perdida posteriormente (e tinha sido vista por muito poucas pessoas), a fotografia de Stieglitz, que segundo uma carta tinha sido tirada em 19 de abril de 1917, tornou-se o documento-chave no registro da Fountain

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Após a exibição, Fountain só voltou a ser comentada publicamente no mundo da arte em 1934, num artigo do líder do movimento surrealista André Breton. Neste artigo pioneiro sobre a carreira artística de Marcel Duchamp, tanto a Fountain como os restantes readymades criados são fortemente mencionados. Assim, a Fountain e os readymades tornaram-se para inúmeros artistas o ponto de partida para a ideia de arte como conceito. Além disso, questionaram a própria definição de arte ao levantar várias questões pertinentes como: O que é uma obra de arte? Quem decide, o artista ou o crítico? Uma obra pode derivar apenas de uma ideia ou requerem a mão do criador? Extensamente estudado, Fountain ofereceu uma extraordinária narrativa na arte, ao questionar as estruturas de crença sobre arte, o papel do gosto e valor associado ao conceito de arte. Numa entrevista em 1964, Marcel Duchamp referiu ter escolhido este objeto por achar que tinha menos hipótese de ser apreciado (embora muitos na época o considerassem esteticamente agradável). Na década de 1060, Marcel Duchamp criou 17 cópias que se encontram atualmente expostas em vários museus.

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“I was drawing people’s attention to the fact that art is a mirage. A mirage, exactly like an oasis appears in the desert. It is very beautiful until, of course, you are dying of thirst. But you don’t die in the field of art. The mirage is solid.”

 


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